Portugal voltou a destacar-se no contexto europeu por uma razão pouco confortável: a importação de automóveis usados atingiu um novo recorde em 2025.
De acordo com os dados apresentados pela ACAP (Associação Automóvel de Portugal), entraram no país 120.787 ligeiros de passageiros usados, mais 13,7% do que em 2024.
Este volume equivale a 53,7% das vendas de veículos novos no mesmo período, que totalizaram 264.821 unidades, um rácio que a associação considera distorcer o mercado e comprometer qualquer estratégia de renovação do parque automóvel nacional.
Idade média elevada agrava envelhecimento do parque
O impacto desta tendência é ainda mais evidente quando se observa a idade média dos veículos importados: 7,9 anos.
A ACAP indica que 36% destes automóveis têm entre cinco e dez anos, 19% situam-se entre dez e 15 anos e cerca de 2% chegam ao país com mais de 20 anos.
Este fluxo de viaturas antigas contrasta com os objetivos de descarbonização e com a realidade do parque nacional, cuja idade média era de 14,1 anos em 2024, com 1,6 milhões de ligeiros de passageiros a ultrapassarem os 20 anos de idade.
Combustão ainda domina, apesar do crescimento dos elétricos
Há, ainda assim, um sinal positivo: 36% dos usados importados em 2025 recorrem a energias alternativas.
Dentro deste grupo, 21% são veículos 100% elétricos (BEV) e 12% híbridos plug-in (PHEV), enquanto os híbridos convencionais (HEV) representam apenas 3%.
No entanto, a maioria dos veículos continua a depender de motores de combustão interna. Segundo a ACAP, 33% dos usados importados são a gasóleo e 31% a gasolina, o que limita o impacto da redução das emissões e na modernização efetiva do parque automóvel.
Falhas no enquadramento ambiental e contributivo
Outro ponto crítico identificado pela associação prende-se com o enquadramento ambiental e contributivo destes veículos.
Ao contrário dos automóveis novos vendidos em Portugal, muitos usados importados entram no mercado sem um contributo equivalente para os sistemas de gestão de resíduos automóveis, pneus e óleos usados.
Para corrigir esta assimetria, a ACAP defende que todos os veículos usados importados passem a estar obrigatoriamente inscritos no Sistema Integrado de Registo Eletrónico de Resíduos (SIRER), com uma articulação direta entre o IMT e a Autoridade Tributária no momento da legalização.
“Porto de abrigo” para viaturas rejeitadas noutros mercados
Sem este reforço regulatório, a ACAP considera que Portugal continuará a funcionar como um “porto de abrigo” para veículos que outros mercados já não querem nas suas estradas.
Esta situação, alerta a associação, penaliza a renovação do parque, atrasa a redução das emissões e cria uma concorrência desequilibrada face aos automóveis novos.
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