Smart #2: O regresso de um ícone

há 3 horas atrás - 14 Outubro 2026, turbo
Smart #2
Smart #2
Num mercado dominado pelos SUV, a Smart aposta num caminho diferente. O novo #2 recupera o conceito do Fortwo e prova que, na mobilidade urbana, a inteligência não se mede pelo tamanho

A Smart revelou no Salão Automóvel de Paris, aquele que poderá ser o modelo mais importante da sua história recente. O novo #2 representa muito mais do que a entrada de mais um elétrico no segmento urbano, cada vez mais dominado pelos SUV compactos. É o regresso às origens da marca e à filosofia que fez do Fortwo um dos automóveis mais emblemáticos da mobilidade urbana moderna.

Quase três décadas após a estreia do pequeno citadino de dois lugares, a Smart recupera a fórmula que a distinguiu no mercado e adapta-a à era da eletrificação. Com chegada prevista para o próximo verão, o novo modelo estará disponível em quatro versões — Pure, Pure+, Premium e Culture Edition —, com preços a partir de 19.990 euros, já com IVA. As pré-encomendas já estão abertas, enquanto a versão Premium, que deverá concentrar a maior procura, terá um preço de 24.490 euros.

De volta à cidade

Durante anos, o Smart Fortwo foi encarado como uma excentricidade num setor habituado a medir sucesso em centímetros. Enquanto a indústria crescia geração após geração, a Smart insistia em fazer precisamente o contrário. O conceito parecia simples: criar um automóvel exclusivamente orientado para a cidade, capaz de ocupar metade do espaço de muitos concorrentes e de responder aos desafios de mobilidade que já começavam a ser evidentes nos grandes centros urbanos. A aposta revelou-se acertada.

O Smart Fortwo tornou-se um fenómeno de nicho, conquistou um público fiel e construiu uma identidade própria. A evolução do mercado, contudo, empurrou a marca para outras direções. Os recentes #1 e #3 demonstraram que a Smart era capaz de competir no segmento dos SUV elétricos compactos, mas também levantaram uma questão inevitável, continuava a existir espaço para um verdadeiro sucessor do Fortwo? A resposta surge agora sob a forma do novo #2. Mais do que um exercício de nostalgia, trata-se de uma tentativa de reinterpretar um conceito que continua surpreendentemente atual.

A verdade é que os problemas que motivaram o aparecimento do Fortwo continuam presentes. O congestionamento urbano não desapareceu. O estacionamento continua a ser um dos maiores desafios das grandes cidades. Os custos de utilização ganharam ainda maior relevância e a procura por soluções de mobilidade eficientes permanece uma prioridade. Neste contexto, a Smart decidiu regressar às bases da sua identidade e desenvolver um modelo concebido especificamente para responder a essas necessidades.

A força da Tridion

O novo Smart #2 assenta na inédita Electric Compact Architecture (ECA), uma plataforma desenvolvida especificamente para um automóvel urbano elétrico. Ao contrário de muitas soluções adaptadas de veículos maiores, esta arquitetura foi pensada desde o primeiro esboço para maximizar a utilização do espaço disponível dentro de uma carroçaria com menos de três metros de comprimento. A presença da bateria sob o piso e a integração dos principais componentes mecânicos permitiram criar um habitáculo surpreendentemente amplo para dois ocupantes, mantendo ao mesmo tempo uma pegada urbana extremamente reduzida. A engenharia desempenha um papel central neste projeto. A Smart procura demonstrar que um automóvel compacto não tem necessariamente de representar um compromisso técnico.

Um dos exemplos mais evidentes desta filosofia é a adoção da nova Tridion Cell Evo, sucessora direta da célula de segurança que se tornou uma das imagens de marca do Fortwo. Segundo a Smart, mais de 78% da estrutura da carroçaria utiliza aço de alta resistência, complementado por componentes com resistência à tração até 1.800 MPa. A rigidez torsional anunciada atinge 39.000 Nm/grau e a estrutura foi concebida para suportar cargas superiores a quatro toneladas sobre o tejadilho. São números impressionantes num automóvel deste formato e que reforçam a importância atribuída à segurança passiva.

A vantagem da tração traseira

Essa preocupação estende-se à proteção dos ocupantes. O #2 integra sete airbags, sistemas avançados de retenção e uma estrutura multicamada destinada a proteger a bateria em caso de colisão. A Smart pretende assim contrariar uma perceção que acompanhou muitos citadinos ao longo das últimas décadas: a ideia de que um automóvel pequeno oferece necessariamente menores níveis de proteção. Mas o novo modelo não vive apenas da segurança. A marca dedicou igualmente uma atenção considerável ao comportamento dinâmico. O #2 adota uma configuração de tração traseira, apresenta uma distribuição de peso de 50:50 entre os eixos e recorre a uma suspensão traseira independente de cinco braços, uma solução que a Smart afirma ser única no segmento.

O objetivo passa por oferecer uma experiência de condução mais refinada sem comprometer a agilidade que sempre caracterizou os seus modelos urbanos.  Essa agilidade continua a ser um dos principais argumentos do modelo. O diâmetro de viragem de apenas 6,95 metros promete devolver ao #2 uma das qualidades mais valorizadas do antigo Fortwo. Em cidades onde cada metro conta, a capacidade de realizar manobras apertadas continua a ser uma vantagem real e não apenas um argumento de marketing.

A lógica da eletrificação

No capítulo da propulsão elétrica, a Smart optou por uma abordagem pragmática. A bateria CATL de 35,8 kWh do tipo LFP não impressiona pelos números absolutos, sobretudo numa época em que muitos fabricantes procuram ultrapassar a barreira dos 500 ou 600 quilómetros de autonomia. No entanto, a escolha parece coerente com a missão do veículo. A autonomia combinada estimada de 290 quilómetros em ciclo WLTP deverá ser suficiente para a esmagadora maioria das deslocações urbanas e suburbanas, permitindo simultaneamente limitar peso, custo e consumo de recursos.  A arquitetura elétrica integra ainda um sistema de propulsão altamente compacto do tipo 11-em-1, que reúne motor elétrico de 82 cv (60 KW), eletrónica de potência e diversos sistemas de controlo numa única unidade.

Esta solução contribui para reduzir a complexidade técnica e otimizar o espaço disponível, um fator particularmente importante num veículo com dimensões tão reduzidas. Do ponto de vista prático, a possibilidade de efetuar carregamentos rápidos dos 10 aos 80% em aproximadamente 20 minutos surge como um dos argumentos mais relevantes (em AC o tempo varia entre as 3 e as 5 horas). Para a maioria dos utilizadores, a rapidez de recuperação da autonomia será provavelmente mais importante do que a dimensão da bateria ou os valores recordistas normalmente associados a modelos de segmentos superiores.

Uma aposta contra a corrente

O design procura igualmente manter uma ligação clara ao património da marca. Desenvolvido pela equipa global da Mercedes-Benz, preserva a clássica configuração "wheels-at-the-corners", com rodas posicionadas junto aos extremos da carroçaria e balanços extremamente reduzidos. A solução continua a cumprir uma função prática ao maximizar o espaço interior, mas desempenha também um papel importante na identidade visual do modelo. Basta um olhar para reconhecer a ligação conceptual ao Fortwo. O lançamento prevista  o próximo ano (razão por que ainda não se conhecem preços) do Smart #2 representa, no fundo, uma tomada de posição num mercado que parece cada vez mais homogéneo. Enquanto muitos fabricantes convergem para soluções semelhantes, a Smart decide recuperar um conceito altamente especializado.

A estratégia não está isenta de riscos, num mercado que privilegia cada vez mais veículos versáteis, espaçosos e capazes de responder a diferentes necessidades. Ainda assim, a proposta da Smart assenta numa lógica difícil de ignorar: quase três décadas depois da estreia do Fortwo, as cidades continuam a enfrentar os mesmos desafios de mobilidade, estacionamento e congestionamento que estiveram na origem daquele conceito.

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